05-08-2011 10:48

Um retrato em tons de Minas

Tributos durante o centenário do pai do samba paulista, o mestre Adoniran Barbosa, mostram um sambista muito além da Terra da Garoa

 

Paletó risca de giz, dedos a segurar a caixa de fósforo em forma de pinça, o batuque suave com a outra mão e a típica e fundamental gravata borboleta. Este é Adoniran Barbosa, em apresentação ao Sr. Brasil, programa de Rolando Boldrin. Crédito: Arquivo TV Brasil.

Texto: Lucas Alvarenga
Participação: Nara Fernandes

A história que nóis vamo contá/ Tem um tar de João Rubinato./ Homi filho de italianos cuns pés em São Paulo/ Que de tanto buscá o estrelato/ Foi discoberto pelo samba/ E cum ele deixó seu recado./ Uma frechada de poesia/ Concreta, retirante e do cortiçado./ Dos palacete assobradado e dos barraco a dirrubá./ Que donde quer que seja cantada, no Bixiga, no Brás ou nas Gerais, tem significado./ Tem Adoniran Barbosa, personagi dum enredo, agora mais que centenário. Vamo oiá?

Com olhos a captar momentos igual à lente de uma câmera, João Rubinato, filho de Fernando e Emma Rubinato, caminhava pelas ruas de São Paulo com uma sacola nos ombros e sambas a fervilhar na cabeça. O homem de nome “macarrônico”, nascido em 06 de agosto de 1910, na cidade paulista de Valinhos, criara uma personagem: Adoniran Barbosa. Com ele, ganharia a admiração de músicos Brasil afora, que interpretam suas crônicas musicais paulistanas com outros sotaques, como relata o bamba mineiro Dudu Nicácio, integrante do espetáculo Adoniranas. “Optamos por traduzir o universo poético do autor com nosso olhar, nossa forma de criar”.

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 “Admiramos a obra do Adoniran porque nela se encontram músicas que retratam, de forma verossímil, o contexto social paulista, o qual reflete, em grande parte, a condição social vivida por muitos brasileiros”
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grupo Samba de Comadre

Evocar a obra do pai do samba paulista fora de seu contexto era um desafio para o Grupo Cirandeiros, de Santa Luzia. “Imitar o Adoniran seria desrespeitoso, pois o reduziria a trejeitos e maneirismos. Deixar de lado sua fala ‘italianada’ e os erros propositais de português descompõe as melodias”, esclarece Daniel Zoto, voz e violão do conjunto de sambistas, que prossegue, esmiuçando as razões que o levaram a promover o tributo ao mestre, realizado pela primeira vez em setembro passado, no Conservatório UFMG. “Essa é a grande característica do Adoniran. Ele imprimiu sua assinatura naquilo que fez. O que nós preparamos foi uma homenagem, sem forçar ser parecido, sem forçar ser diferente”. De lá pra cá, outras apresentações se repetiram lançando novas "frechadas" de samba adonirano na histórica Santa Luzia e na cosmopolita capital das Gerais.

Conjunto de vozes femininas a cantar o ritmo que consagrou nosso protagonista, o Samba de Comadre garante que a resposta à possibilidade de se trabalhar com a produção do compositor, cantor, humorista e ator, em Belo Horizonte, está na própria cidade de São Paulo. “Admiramos a obra do Adoniran porque nela se encontram músicas que retratam, de forma verossímil, o contexto social paulista, o qual reflete, em grande parte, a condição social vivida por muitos brasileiros”, resumem as sambistas, que dividem jornada como professoras em escolas do ensino fundamental e médio em Belo Horizonte.

Uns “trens” especiais


Desde 2008, o COCORIcoral, de Divinópolis, no Centro-oeste de Minas Gerais dá a sua roupagem a obra ao Samba do Arnesto, de Adoniran e Alocim

O centenário de nascimento do autor de clássicos como Trem das Onze e Saudosa Maloca, vigente até esta data, serve para contar o tempo e retomar assuntos oportunos. A opinião de Daniel Zoto, do Cirandeiros, é a mesma de Dudu Nicácio, integrante do Dois do Samba e do recital Adoniranas. O espetáculo, que teve a participação do escritor e diretor teatral Fernando Limoeiro, homenageou o retratista musical com sambas originais que levam o nome do show, como explica Nicácio, também produtor cultural. “As adoniranas são sambas que abordam, de forma simples, fatos, problemas e passagens do nosso cotidiano”.

Responsáveis pela noite adonirana no Conservatório UFMG, os Cirandeiros se surpreenderam com a receptividade das músicas do sambista paulista. “Não que fossem um ‘lado B’ dele, mas Acende o Candeeiro e Joga a Chave, são menos conhecidas do grande público”, argumenta Zoto. Os sorrisos alegres ao cantar canções tristes como Saudosa Maloca e Iracema também roubaram a cena ao revelar o verdadeiro Adoniran, trágico e cômico, além da base do gênero que ele tanto cultivou, como sintetiza Daniel. “A essência do samba é esta. Seja paulista, carioca, baiano ou mineiro. Há uma alegria que reveste a tristeza da canção”.

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 As adoniranas são sambas que abordam, de forma simples, fatos, problemas e passagens do nosso cotidiano
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sambista e produtor cultural Dudu Nicácio

Entre adoniranas e malocas, um espaço para outras homenagens em Minas Gerais. E foram muitas. De um lado, a carioca de nascença e mineira de alma, Aline Calixto, e o seu show em tributo ao centenário dos mestres Adoniran Barbosa, Noel Rosa, Ataulfo Alves e Cartola. Do outro, o grupo Copo Lagoinha, mineiros sim, mas com a típica levada do samba carioca. Somam-se também à lista a sambista Luciene Lemos, o festival Adoniran Science 2011 e até uma edição do projeto O Samba Bate Outra Vez, realizado no extinto Lapa MultShow, ainda no ano de 2010. Na oportunidade, os grupos Capim Seco, Fidelidade Partidária e Samba de Comadre levaram ao público os lados A e B do compositor até às 4h de domingo. Maria Alcina, vencedora da fase nacional do Festival Internacional da Canção (FIC) de 1972, rendeu o último tributo ao mestre. No álbum Adoniran 100 Anos, lançado ano passado, a sambista canta o pot-pourri Um Samba no Bixiga (1956)/ Plac ti Plac (1967).

Alegrias Gerais ao mestre


Além do Adoniran cronista, que registrou sua percepção sobre a vida em forma de música, havia um outro. Ou, pelo menos, ele pretendeu que houvesse. Afinal, ser galã sempre foi o seu sonho. Longe de ter uma beleza exuberante, o humorista desejava emplacar um samba com sua interpretação para alcançar o estrelato. As gravadoras, porém, rejeitavam sua voz rouca e quando aceitavam o fracasso era certo. Em 1951 veio a primeira tentativa com Saudosa Maloca e, em 1952, a segunda com o Samba do Arnesto, composta com o amigo Alocim. A volta por cima do bamba da Terra da Garoa aconteceu com os Demônios da Garoa e na sua primeira parceria com um artista mineiro do Serro, Oswaldo França, em Joga a Chave. A canção foi a vencedora do concurso de músicas do carnaval paulistano.

O sucesso da dobradinha e de canções como Trem das Onze foi passageiro. O mestre do samba paulista viveria um novo período de declínio, com a ascensão do rock e da bossa nova no Brasil, durante os anos 50 e 60. Ao lado de sua esposa, Matilde de Luttis, João Rubinato conta novamente com a amizade de um músico das Gerais para encher seu coração de alegria. Em Prova de carinho, canção melodiada pelo maestro de Viçosa, Hervé Cordovil, Adoniran presta uma homenagem em dobro à sua amada: ao escrever a letra para ela e ao fazer da corda mi de seu cavaquinho, citada na música, a aliança que uniu o casal até a morte do sambista em 1982.

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 "Além do Adoniran cronista, que registrou sua percepção sobre a vida em forma de música, havia um outro. Ou, pelo menos, ele pretendeu que houvesse. Afinal, ser galã sempre foi o seu sonho"
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O cronista acostumado a prestar homenagens se viu homenageado já no final de sua carreira. E entre tantas vozes que deram forma aos seus sambas, destaque para Clara Nunes, mineira de Caetanópolis e legítima representante do batuque cantado nas alterosas. O primeiro dueto com o homem de voz rouca e palavras simples aconteceu em 1979, para o LP Clara Esperança, que atingiu a marca de 900 mil discos vendidos. Abrigo de Vagabundo (1959), além de um samba, é o relato de uma São Paulo cada vez mais verticalizada. Um ano depois, chegou a vez de Clara emprestar sua voz à Iracema (1956), uma das faixas do álbum Adoniran e Convidados (1980), um tributo aos 70 anos do sambista.

Um Adoniran além do samba

Após 30 anos do LP que materializou a produção adonirana, uma nova oportunidade de relembrar o mestre havia surgido. Com seu jeito "largado" e malandreado, um homem, bem diferente do quase cômico personagem de João Rubinato, pisa em um palco pronto para homenagear o pai do samba paulista. Jovem, ele chega de mansinho e aguarda a discotecagem para mostrar que o rap e o samba falam a mesma língua. "Desci do morro, malandro/ Com disciplina e humildade/ Vim mostrar meu empenho, talento, sagacidade/ Amor, respeito/ É o que se toca nos versos de Adoniran e da Saudosa Maloca", abre, assim, o rapper mineiro Renegado sua participação no Som Brasil, Especial Adoniran Barbosa, pela Rede Globo.

Após as interpretações de Saudosa Maloca; Nóis não usa os bleque tais e de Despejo na Favela, exibidas em abril no programa em tributo ao mestre, Flávio de Abreu, o Renegado, nascido e criado no Alto Vera Cruz, bairro belo-horizontino de povo humilde e talentoso, revela a sensação de ter realizado a ponte entre os dois gêneros por meio da obra de Adoniran. “O rap, por ser o primo mais novo do samba, também tem a função de retratar o dia a dia desta nação. E Adoniran, com toda sua simplicidade, conseguiu mostrar o cotidiano deste povo”.

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 "Desci do morro, malandro/ Com disciplina e humildade/ Vim mostrar meu empenho, talento, sagacidade/ Amor, respeito/ É o que se toca nos versos de Adoniran e da Saudosa Maloca"
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rapper Flávio Renegado

Em outro ponto da capital mineira, uma nova interpretação para o bamba. Imersos no universo lúdico dos espetáculos cênico-musicais, os músicos graduados pela Fundação de Educação Artística, Eugênio Tadeu e Miguel Queiroz, o Duo Rodapião, apresentam às crianças uma pitada de humor adonirano. “Quando escolhemos As Mariposas, acreditávamos que ela tinha um quê de infantil, embora não fosse composta para esse público. As imagens de lâmpada, mariposa e a relação metafórica com o homem e as mulheres é pura brincadeira”, justifica Eugênio.

Desde 1992 nos palcos mineiros e latino-americanos, o dueto usa o samba, e neste caso, Adoniran Barbosa, como elemento para a proposta de oferecer diversidade musical ao público infantil. Por isso, o músico Eugênio Tadeu, também coordenador do Serelepe, programa da Rádio UFMG Educativa, admite. “Acreditamos que mostrar vários tipos de música às crianças é um caminho interessante, pois só gostamos daquilo que conhecemos”.

E o que resume todas estas homenagens e releituras além da curiosidade por uma obra complexa e pela necessidade de dar a Adoniran o merecido status que não teve em vida? Daniel Zoto, na tentativa de aclarar a questão, lança mão de um depoimento lapidar. “Por ser compositor, sempre tive curiosidade sobre a biografia e forma como os outros autores constroem sua obra. É como um joão-de-barro olhando a casa do vizinho. E Adoniran soube tratar com leveza e bom humor os percalços da vida do cidadão comum, comunicou-se com quem ouvia suas músicas e representou nossa gente. É difícil tocar e cantar o que ele criou”.

Saiba mais sobre o mestre do samba paulista em:

- Adoniran 100 anos, site em homenagem ao sambista de Valinhos

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MINAS E ADONIRAN

Uma parceria eternizada pela música

Clara Nunes em "Abrigo de Vagabundo".

"Joga a chave": parceria com Oswaldo França, músico natural do Serro/ MG.

"Prova de carinho": uma parceria com o maestro de Viçosa, Hervé Cordovil.


Questionário

Das parcerias de Adoniran com mineiros, qual te agrada mais?

Joga a chave (6)
50%

Prova de carinho (6)
50%

Total de votos: 12